De Tudo ao Meu Amor Serei Atento! E Antes e com Tal Zelo e Tanto, Que Mesmo em Face de um Maior Encanto, D'Ele se Contente mais meu Pensamento.
(Uma Crônica Alucinante, by Elmano Sandino)
Pois foi. Hoje eu acordei assim, com essa frase do Vinícius, na cabeça. Como diria Zeca Baleiro, "com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia!".
Por isso esse título. Versos de Vinícius.
E este danado desejo de desejar alegria a todos os seres, até aos mais imerecidos.
É que a alegria invade meu peito, feito a luz do dia que adentra em todas as frestas e sombras da noite, transformando-as em claridade e radiante beleza.
Não sei se foi a noite - ou a meia-noite - ou se foi assim no princípio do dia, naquela claridade quem vem vindo vagarzinho e, de repente, se instala e alumia o dia. Isso, eu não sei!
Mas sei que o dia pode ser maravilhoso quando conseguimos captar o amor que nos arrodeia, num corpo capaz de desdobrar-se em eternos arroubos de amor e paixão, de ternura e tesão, de divino e insano... Bem mais de insano, de loucura e de tumulto.
Você pode até pensar: "Ela não merece!"
Mas claro que merece! Merece tudo, merece aquilo, e merece tudo o mais.
Pois o seu corpo se desdobra e revela segredos já há muito, e a muitos, revelados e que, no entanto, se anunciam subliminares pioneiros, desbravadores, bandeirantes.
Virgem tanto quanto as índias que desde cedo dão-se como animais, sem desperdiçar nenhum cio. Por isso esta alegria que ora me invade o peito, tem o seu direito.
Não importa o escarro. Afinal, mais desejoso o escarro que aquela dor, no peito, ou um pouco abaixo, do lado esquerdo, como se uma costela estivesse quebrada e tentasse, por baixo, atingir-me o coração ou o pulmão. Num limiar de dor bem superior àquela dor lancinante que de rotina, passa os dias a doer entre a Spina Bífida S-1 e a bacia, a que os matutos chamam cadeiras. Essa por que dói direto já há mais de 15 anos, e o corpo sabe que é só dor. Não preocupa, nem vai a lugar algum. Fica só alí.
Diferentemente dessa outra que, ora penso, vai penetrar e escavar meu coração, ou pulmão, num tufão repentino, que ora passa, e de quando em vez, vem.
No entanto a alegria é imensa. O que eu espero d'Ela, Ela me dá! Até o que não espero!
Ah! Mas eu não esperava esta dor alucinante, dessa costela, literalmente tentando perfurar meu lado esquerdo do peito. Ah! Meu Deus essa dor!
Não dói... Se não se respirar!
No entanto, se uma tosse, se atreve o mais leve que seja, se afigura uma navalha. Não! Navalha não; que corte de navalha é fino, feito gilete. E esta se afigura como se fosse uma estaca, um mourão de cerca, ou um pedaço de osso quebrado que deseja rasgar a carne, no rumo do lado esquerdo do peito, subindo, do baixo-ventre e perfurando coração e um dos pulmões.
"Tosse. Tosse."
Ah! Esta dor, invade... No entanto a alegria perdura. Ambas eternas. A alegria e a dor.
"Tosse. Tosse.
Tooooossssseeeeee. Tooooooossssssseeeeeee!"
Ai! Agora furou. Só pode. Essa dor não pode ser em vão. Alguma coisa com certeza, literalmente me atravessa o coração. Que agora dói. Mesmo que não respire. Mesmo que não se tussa.
"Tosse. Tosse.
Ai!
Tooooossssseeeeee. Tooooooossssssseeeeeee! AAAAAiiiiii!"
...
Parou.
Parou a dor. Que bom! Parou a dor e permanece a alegria!
Mas que é isso?
Tô flutuando?
E quem é aquele sujeito, deitado em minha cama? Aquele corpo, não me é estranho!
Meu Deus!
Sou eu?
Sou eu, aquele corpo que jás inerte em meu leito?
Ah! Farta miséria!
Justo agora que acabaram-se todas as dores.
(Elmano Sandino)